sábado, 8 de novembro de 2008

Método de discussão com o cabeça-dura!!!


Discutir com alguém cabeça-dura sem aborrecer-se é uma arte milenar que só recentemente começou a ser mais difundida ao redor do globo. A dificuldade aparente desse suposto desafio é apenas uma lenda urbana presente em nosso imaginário coletivo desde meados de 300 a.C., quando a escrita começou a ser mais utilizada na Grécia arcaica.
O procedimento mais aconselhável àqueles que preferem evitar dores de cabeça sequer precisa que se engula o orgulho ou se sacrifique a honra, uma vez que sua criação toma como base a essencialidade de ambos. Apenas por vã vaidade que se torna impossível a aplicação do método.
Comecemos com a definição de nosso objeto de estudo: o cabeça-dura. O indivíduo cabeça-dura tem certeza de suas verdades e opiniões, assim como a certeza de que está do lado “do bem” em suas idéias. Muitas vezes querem apenas “o melhor pra você” ou — ainda — “o mais sensato”. Discordar pura e simplesmente, nesses casos, tentando mostrar a ele que existe o seu lado, é tão inútil quanto ensinar um porco a dançar, além de irritar o cabeça-dura (o porco também se irrita se você tentar ensiná-lo a dançar) e cansar a mente — e a língua. Mostrar que se sabe mais de forma efetiva é igualmente desnecessário.
O nosso método de discussão com o cabeça-dura se concentra em quatro pontos fundamentais:
1. mostrar que se sabe tanto quanto o cabeça-dura
2. concordar com o que ele diz
3. não tentar provar absolutamente nada
4. apresentar um certo cinismo de forma controlada
Ao indicar que seu conhecimento é o mesmo que o dele — mesmo que não seja — você questiona de forma sutil a posição do cabeça-dura de “sei mais e portanto sei o certo”. Em resposta a uma frase do tipo “segundo Schiller, a literatura alemã do romantismo influenciou a poesia tailandesa do século XX”, um simples “eu sei” é suficiente para desarmar qualquer cabeça-dura não-treinado e desconhecedor do nosso método.
Concordar com o discurso dele não implica em uma total submissão de suas idéias. Ao contrário, afirma a superioridade das suas, que co-existem com as dele independentemente de suas — dele — vontades. O cabeça-dura pode argumentar, por exemplo, a respeito de uma viagem, que “a cidade de Seattle é muito mais rica em possibilidades de experiência do que Vancouver”, como forma de indicar que se deve viajar a Seattle e não a Vancouver. Nesse caso, bastaria um “tem razão”. Note que é desnecessário indicar sua decisão inabalável de viajar a Vancouver.
Note também a semelhança dos pontos 1 e 2 do discurso. Em ambos os casos, o cabeça-dura tende a perceber que “ter razão” é pouco para se convencer alguém de suas idéias. Isso porque ele não sabe — não faz parte da natureza dos cabeça-dura, que muitas opiniões tem base não apenas em números e fatos, mas também em vontades subjetivas que não cabem a ninguém explicar. Verifica-se essa verdade no famoso dito popular “gosto não se discute”.
O terceiro e o quarto pontos vêm como auxiliares dos dois primeiros. Para que se obtenha sucesso na aplicação do método, é imprescindível que não se tente provar nada, em momento algum. Para esse tipo de discussão o cabeça-dura está preparado e certamente tem infinitos argumentos para cansá-lo até que ele se convença de que é o melhor ali. O cabeça-dura não está interessado em provas de idéias que não são deles, e passará o tempo todo tentando provar que você está totalmente errado (não importando os fatos apresentados).
O cinismo é mais sutil e difícil de ser explicado e definido. O individuo que for capaz de dominar os dois primeiros pontos provavelmente compreenderá porque o cinismo discreto é parte fundamental do método. Sem ele, é impossível levar adiante a discussão sem irritar-se com o cabeça-dura, ou mesmo sem irritá-lo (supondo que você se importe com isso).
Esse cinismo consiste em certeza das suas próprias opiniões e idéias — ainda que sejam susceptíveis a mudanças — como aquilo que você acha melhor e a aceitação de que muitos outros não concordarão com elas. Isso o coloca em uma posição superior a outros interlocutores e principalmente os cabeça-dura, que têm como certeza maior a idéia de que só eles estão certos e só eles sabem o que é melhor.
Caso um cabeça-dura lhe apresente uma idéia demais contrária às suas, há ainda uma outra saída proposta pelo nosso método. Quando uma afirmação — enfaticamente defendida pelo cabeça-dura — lhe for simplesmente ofensiva, ou ainda, repulsiva, pode se recorrer ao ponto 1,5: discordar, mas com cautela. A cautela é fundamental. Ao se discordar é que deve ser feito o uso mais exagerado do cinismo discreto. Exemplificando o ponto, pode se ter algo como “o ser humano será substituído pelas máquinas, ele está obsoleto e a seleção natural tratará de resolver esse problema”. Note que a apresentação de fatores externos como pesquisas publicadas e opiniões de especialistas é desnecessária e deve ser evitada, porque o coloca na mesma posição do cabeça-dura — que, por definição, tem respostas e explicações para tudo. O approach recomendado seria algo como “entendo seu raciocínio, mas não concordo com ele”.
Você pode até objetar que essa resposta o transforma em um cabeça-dura, mas para isso o método já tem uma resposta. O objetivo principal aqui é evitar dores de cabeça, partindo do princípio que o cabeça-dura não mudará sua opinião, tampouco aceitará aquela apresentada por você. Uma resposta evasiva, portanto, é sempre a mais recomendada.
Para a aplicação bem sucedida do nosso método de discussão com o cabeça-dura, sugere-se um tratamento intensivo em relação ao uso da expressão “foda-se” para com seus próprios problemas, que dará o afastamento e tranqüilidade ideais para se lidar com os mais teimosos dos seres. Para mais informações sobre o método foda-se de supressão de problemas pessoais, entre em contato com um de nossos atendentes. Atendimento personalizado aos daltônicos com dificuldades de identificar a cor laranja.

2 comentários:

Unknown disse...

Como sempre vc surpreendendo... kkkkkkkkkkkk... excelente texto!!!

Unknown disse...

hay veces que creemos que el cabeza dura es el otro y no nos damos cuenta que muchas de esas veces somos nosotros mismos que no podemos entender y respetar la postura del otro. Apesar de NO sentirme identificada me encanto el texto! jaja!
Besos!