quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Afinidade...


Afinidade é um dos poucos sentimentos que resiste ao tempo e ao depois.
A afinidade não é o mais brilhante, mas é o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. O mais importante também.
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto em que foi interrompido.
Afinidade é não haver tempo medindo à vida. É uma vitória do adivinhado sobre o real, do permanente sobre o passageiro, do subjetivo sobre o objetivo, do básico sobre o superficial.
Ter afinidade é muito raro, mas quando existe, não precisa de códigos verbais para se manifestar. Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois de que as pessoas deixaram de estar juntas. O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples e cara de sua boca diante de alguém com quem você tem afinidade.
Afinidade é ficar de longe, pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou imobilizam. É ficar conversando sem trocar uma palavra. é receber o que vem do outro com uma aceitação anterior ao entendimento.
Afinidade é sentir com. Nem sentir "contra", nem sentir "para", nem sentir "por", nem sentir "pelo". Quanta gente ama loucamente, mas sente "contra" o ser amado, não para eles próprios.
Sentir com é não ter necessidades de explicação do que está sentindo. É olhar e perceber. É mais calar do que falar, ou quando falar, jamais explicar, apenas afirmar.
Afinidade é sentir "com", mas não sentir "por". Quem sente "por", confunde afinidade com masoquismo. Quem sente "com" avalia sem se contaminar. Compreende sem ocupar o lugar do outro. Aceita para poder questionar. Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.
Só entra em relação rica e saudável com outro, quem aceita para poder questionar. Não sei se sou claro, quem aceita para poder questionar, não nega ao outro a possibilidade de ser o que é, como é, da maneira que é. E, uma vez aceitando-o, ai sim, pode questionar, até duramente, se for o caso. Isso é afinidade, mas o habitual é agente ver alguém questionar porque não aceita o outro como ele é. Por isso, aliás, questiona. Questionamento de afins, eis a (in)fluência. Questionamento de não afins, eis a guerra.
A afinidade é um sentimento singular, discreto e independente. Não precisa do amor, pode existir quando ele esta presente ou quando não. Independente dele. Pode existir a quilômetros de distância. É adivinhando na maneira de falar, de escrever, de andar, de respirar. Há afinidade por pessoas que apenas a vemos passar, por vizinhos com quem nunca falamos e de que nada sabemos. Há afinidade com pessoas de outro continente a que nunca vimos, veremos ou falaremos.
Quem pode imaginar que, durante o sono, fluídos nosso saem para buscar sintonias com pessoas distantes, com amigos a quem não vemos, com amores latentes, com irmãos do nao vivido?
A afinidade é singular, discreta e independente, porque não precisa de tempo para existir. Vinte anos sem ver aquela pessoa com quem se estabeleceu o vínculo de afinidade e no dia em que você a ver novamente vai prosseguir a relação exatamente do ponto em que parou. A afinidade é a adivinhação de essências não conhecidas nem pelas pessoas que as tem.
Por prescindir do tempo a ser a ele superior, a afinidade vence a morte porque cada um de nós traz afinidades ancetrais com a experiência da espécie, no inconsciente. Ela se prolonga nas células dos que nascem de nós, para encontrar sintonias futuras nas quais estaremos presentes.
Sensível é a afinidade, e exigente, apenas de uma coisa, que as pessoas evoluam parecidos. Que a erosão, amadurecimento ou aperfeiçoamento sejam do mesmo grau, porque o que define uma afinidade é a sua existência também depois.
Aquele ou aquela de que você foi amigo ou amado, e anos após encontra com saudades ou alegria, mas percebe que não vai conseguir restituir o clima afetivo de antes, é alguém com que a afinidade apenas foi temporária. A afinidade real não é temporária. É supra temporal. Nada mais doloroso do que contemplar uma passada afinidade, ou a ilusão de que as vivências daquela época eram afinidades. A pessoa mudou, transformou-se por outros meios. A vida passou por ela e fez tempestades, chuvas e plantio de resultado diverso.
Afinidade é retomar a relação no ponto em que parou, sem lamentar o tempo da separação. Porque tempo e separação nunca existiram. Foram apenas oportunidades dada (tirada) pela vida, para que a manutenção comum pudesse se dar. E para que cada pessoa pudesse e possa crer, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado.

E basta!!!

3 comentários:

Unknown disse...

Como você disse, a afinidade não é temporária, e por essa afinidade entre vizinhos, os quais nunca conversaram e nem sabiam nada um do outro, surgiu uma AMIZADE que para mim vale OURO!!!!
Você se tornou mais que um amigo que eu tenho uma afinidade, você se tornou meu IRMÃO!!!!
Saudades já de vc!!!!
Se cuida ai maninho...
Beijo para você.

Unknown disse...

Realmente meu caro amigo, como sempre textos diretos e coesos... parabens mais uma vez!!!

Camarada Rock disse...

Nossa!!!! =O